terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sobre política, discussões e cansaço.

Não sou Dilma. Nem sou Serra. Aliás o embate político travado neste segundo turno simplesmente me cansa, por mais consciente que eu possa ser, ando deveras fadigado das discussões que o pleito tem causado.

É incrível, mas o debate, tal qual se instaurou no país, parece novela das oito de tão maniqueísta. Diz a classe AB, Dilma é o demônio. Dizem os emergentes, Serra é fascista. Poucos percebem tanta semelhança entre os dois presidenciáveis.

Dilma é a matriarca dos mensaleiros, defendem os pró-tucanos. E o PT tornou-se o câncer do poder, o berço de toda a corrupção instaurada no país. Memória curta. Ora, segundo os jornais da época, Eduardo Azeredo, um dos fundadores do PSDB, foi um dos principais acusados no escândalo do mensalão. E quem não se lembra da “Máfia das Sanguessugas”, o famigerado episódio do superfaturamento de ambulâncias, quando o Ministro da Saúde era justamente José Serra? Compra de votos? É só se recordar do que fez FHC para aprovar sua reeleição. Resultado disso tudo? Engavetamento de CPIs, abafamento de processos. Uma redonda suculenta, meia cara de pau, meia dissimulação com cobertura extra de falso moralismo.

Os petistas dizem que Serra é o candidato que privilegia os abonados, que é a favor da privatização indiscriminada, amigo dos banqueiros. Mas justamente em oito anos o governo Lula manteve os juros altíssimos empacando o crescimento nacional. As instituições financeiras continuam sendo as mais beneficiadas de tais medidas. E o que dizer das alianças com José Sarney, Fernando Collor, Paulo Maluf? Os políticos símbolo da elite nacional hoje caminham de mãos dadas com os companheiros trabalhadores que um dia ousaram prometer mudanças radicais na política e economia do Brasil.

Hoje, o PT é mais PSDB do que nunca. O inverso também confere. De minha parte, tento analisar a situação racionalmente. Em nossa história esses são os dois melhores presidentes que tivemos – FHC e Lula. Cada qual com suas mazelas, cada qual com seus méritos. O que eu esperava do próximo é uma reflexão neste sentido, gostaria de alguém que pudesse assumir o quanto a estabilidade econômica de Itamar Franco e FCH nos ajudou. Por outro lado, que mostrasse simpatia pela inclusão social de Lula e a enorme conquista de seus mandatos. São dois itens preciosos dos últimos dezesseis anos, com eles poderíamos mais! Porém, ao invés disso, vejo ataques por todos os lados, dos candidatos aos formadores de opinião, da grande imprensa aos blogs pessoais, do assalariado ao empresário.

Quero uma discussão mais ampla, mais propostas, otimismo. Quero um Brasil ainda mais novo, quero parafrasear o ex-presidente e dizer: “nunca antes na história deste país”. Quero que o que é bom continue, que o que é ruim vá sendo eliminado aos poucos. Quero mais.

Nisso, nenhum dos dois me convence. Nem Dilma, posando ao lado de Chico Buarque na capa da Folha. Nem Serra, de mãos dadas com Gabeira.

4 comentários:

Oura disse...

Cara! Perfeito! Parabéns! É exatamente isso que eu penso. As discussões são um porre. As opiniões são todas tendenciosas. Tentei escrever sobre isso no meu blog, mas você reuniu mais informações e sintetizou tudo da maneira como eu queria. Essas foram as primeiras eleições que votei nulo em tudo. Um grande abraço.

Ricardo Aum disse...

Sigo te achando um sábio.

Tucha disse...

Apesar das semelhanças, acho que o PSDB pega pesado, num política de exclusão e de reforço aos poderosos. Não é atoa que a grande impressa o esta apoiando.

Caféína disse...

Posso tomar este post emprestado e espalhar por aí. Ninguém merece meu voto de confiança.
Tô cheia deles acusando, degladiando, e nada de propostas!