terça-feira, 6 de julho de 2010

Do amor.

Há quem pense que o amor é uma dádiva divina, um presente dado a poucos casais de sorte. Especialmente os que colecionam sucessivas desilusões passam a acreditar na história de caras-metade, almas gêmeas, veem o sucesso amoroso alheio como algo sobrenatural. Mas o amor é terreno, acontece entre pessoas. O erro é crer que ele sobreviva sozinho.


O amor tem uma necessidade urgente de cuidado constante. É premissa básica dar-lhe afagos e surpresas, usar criatividade e ternura. Ele alimenta-se de palavras, mesmo as mais piegas, precisa de flores, de canções. Enganam-se aqueles que procuram maturidade no amor, o sentimento é uma criança eterna e, para manter-se respirando, é indispensável dar-lhe atenção.


O amor implica cozinhar para o outro, levar café na cama. Mentirinhas são bem-vindas, especialmente se a refeição não estiver gostosa. “Está uma delícia, meu querido.” Sei que errei no tempero, mas a demonstração de reconhecimento supera a falta de talento em manusear condimentos.


Mesmo atingindo a aparente maioridade, após anos de existência, é essencial mimar o amor. Quanta gente, depois de décadas, se esquece de fazer um inesperado elogio? Um bilhete ao acordar, um telefonema para falar sobre a lua pendurada no céu.


Repetir sempre a narrativa do dia em que nos conhecemos, fazê-lo com imensurável prazer ajuda a não se esquecer que o amor também é único. Reinventar o sexo, entregar beijos como se fossem o primeiro, cheirar o pescoço do ser amado. Tudo isso faz o amor continuar crescendo forte.


Há quem não suporte ver um casal feliz trocando carinhos. Há quem reclame da solidão feito uma infindável oração. Eu estou com Herbert Vianna que numa música me aconselhou: cuide bem do seu amor, seja quem for.


P.S.: mais um texto que dedico ao meu amor, Renata, de quem não me canso de cuidar.

4 comentários:

.Intense. disse...

E, te falo, poeta: menina de sorte essa Renata. É sorte e tb é merecido, visto que - mesmo convivendo com vc tão de longe - o bem estar que ela te traz, salta aos olhos.

Seu texto me lembrou um do Drummond que diz 'mas eu não estou apaixonado, olho para as cem razões do amor com olhos desconfiados...' (ou coisa assim, hehe xD)...qdo estamos de fora, lemos um texto como o seu e vemos o tanto que faz esse sentido, sobretudo acabamos lembrando uma série de vez que ou descuidamos ou conseguimos cuidar, assim bonitinho, do amor que tínhamos no peito. Eu no entanto, carrego sempre essa dúvida, será que eu sei cuidar bem?

Fica a dúvida, talvez eterna. Enquanto todos se forem, vou pensar que não, e que posso fazer melhor. Quem sabe um dia eu acerto a mão?

;)


Saudade grande de te ver escrever assim, Rafa. Some não.
Bjo intenso.
=*

Sandryne Barreto disse...

Pra variar, só pra variar, que lindo! Rafa, sem palavras...formidável! Só isso. Ah, antes de recorrer ao Gustavo pra te ligar naquele dia, eu tentei encontrar teu contato na internet e acabei chegando nesse blog: http://viuvasdorafaelcury.blogspot.com/.
Beijos Rafa, beijos Renata!!

Caféína disse...

Triste mesmo é deixar um amor escapar, por falta de cuidados...eu ja deixei.

Laura Fuentes disse...

Você tem razão: o amor se constroi. Lindo texto. Amei a citação dos versos do Herbert que sempre me impactaram.